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Contracepção é problema do casal

Contracepção é problema do casal

Para cada 100 novas crianças que nascem no Brasil, pelo menos 30 delas chegam ao mundo sem qualquer tipo de planejamento. Por mais emocionante e especial que seja para algumas pessoas a maternidade e a paternidade, colocar um filho no mundo, sustentar, proteger e educar não é tarefa fácil. Isso envolve não apenas o núcleo familiar, mas a comunidade e também o poder público. A falta de planejamento familiar está causando dois problemas de economia e saúde publica no país: um deles é a gravidez não planejada, em especial entre adolescentes, e o outro é o aumento desenfreado de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

 
Problemas de educação sexual, influencia religiosa, machismo e questão econômica de classe social são alguns dos motivos que impactam nessa situação. A informação correta e a aplicação eficaz de métodos contraceptivos seriam suficientes para atenuar o problema. A resistência em modificar uma cultura antiga e a falta de políticas públicas atrapalham uma mudança de costumes. Atualmente, por exemplo, mesmo havendo uma infinidade de métodos contraceptivos para homens e mulheres, a preocupação em não engravidar ainda é vista como função da mulher.
 
Uma pesquisa realizada com dois mil homens de todo o país com idades entre 15 e 25 anos, pelo Departamento de Ginecologia da Escola Paulista de Medicina junto com a empresa Bayer Brasil, constatou que apesar de 72% dos homens admitirem que a contracepção é um dever do casal, apenas 31% deles utiliza algum método de prevenção à gravidez. Isso significa que, na prática, mesmo sabendo de suas responsabilidades, os homens se esquivam de cumpri-las. Assim como o poder público, que apesar de sustentar em parte o peso de ter que atender pessoas que vieram ao mundo sem qualquer planejamento, não investe em políticas efetivas de educação sexual e planejamento familiar.
 
As instituições que realizam a pesquisa sobre contracepção reuniram, em Sâo Paulo, no último dia 26 de setembro, a imprensa de todo o país para apresentar os dados do levantamento e propor uma discussão sobre o assunto.
 
Homens querem evitam gravidez, mas também evitam se envolver
 
A pesquisa constatou que os homens, de maneira geral, tem conhecimento das mais diversas formas de evitar gravidez. No entanto, na maioria dos casos, eles deixam de utilizá-las por esquecimento, por confiar que a gravidez ‘não vai acontecer com eles’ ou, em última análise por que a principal prejudicada com a gestação não planejada será a mulher. Apesar de considerarem que a melhor forma de contracepção é a camisinha masculina (49%) eles preferem que seja utilizado o anticoncepcional oral feminino (48%), por que nesse caso a tarefa restaria à companheira.
 
Cultura machista também prejudica homens
 
A psicóloga Laura Miller pondera que no machismo não há vencedores. A mesma cultura que massacra as mulheres também prejudica os homens. “Estamos falando basicamente de meninas, de mulheres. Mas a gente precisa também entender a dor dos meninos. As mulheres passaram séculos de uma repressão sexual muito forte, mas a cultura também massacrou bastante os homens. A gente precisa entender que no cenário atual precisamos pensar no acolhimento de meninas e meninos”.
 
Empoderamento feminino é usar contraceptivo
 
A ginecologista e obstetra Albertina Takiuti é coordenadora de um programa de atendimento a adolescentes no Estado de São Paulo. Ela oferece aconselhamento e atendimento ambulatorial e constata que muitas mulheres também se recusam a usar preservativo, principalmente o feminino. O motivo seria um possível desconforto e a estética do preservativo. O resultado disso é o aumento nos casos de gravidez, em especial entre adolescentes. “Estamos voltando à década de 70, quando eu era médica iniciante e as mulheres calculavam na tabelinha. Essa a maneira mais fácil de engravidar e 100% eficiente de ter doenças sexualmente transmissíveis”. Outro problema apontado pela médica são os casos de mulheres homossexuais que contraem DSTs por não considerarem importante o uso da camisinha femi- nina. “Tem muitas meninas homossexuais que estão contraindo HPV. Pra você dizer pra essa menina se cuidar e usar preservativo... nossa! Como você se empodera e tem vergonha de usar camisinha feminina? Nos anos 70 eu ia à várias comunidades e via profissionais do sexo com várias lesões que hoje eu vejo em adolescentes. Alguma coisa tem que ser falada”.
 
Procurando informação no lugar errado
 
A pesquisa também constatou que a principal fonte de informação sobre sexo e métodos contraceptivos ainda é a internet. Isso coloca os jovens em situação de risco já que nem sempre as informações disponíveis na web são confiáveis. “O problema da internet é a fonte da informação. O adolescente naturalmente tem dificuldade de falar de sexo. O Brasil, a meu ver, tem esse entrave aqui. A igreja cristã católica ou evangélica, e a mulçumano então nem se fala, começa a ter um programa de educação sexual importante os pais começam a reclamar”, disse o ginecologista Afonso Nazário, que é professor da Universidade Federal do Estado de São Paulo. Além da internet, boa parte dos jovens também recorre aos amigos para tirar dúvidas sobre o assunto. Para a psicóloga e educadora sexual Laura Muller é preciso se certificar de que a fonte da informação é segura. “Tem um monte de informação sem qualidade. É preciso buscar profissionais que tenham algo que valide sua fala. Boa fonte. Mas dá pra fazer muita educação sexual via internet e ao mesmo tempo orientar fortemente os jovens e os pais para saber escolher qual a melhor fonte”.
 
Aborto controlado X gravidez não planejada
 
Questionados sobre o que seria mais prejudicial a uma adolescente grávida, se um aborto ou a continuidade de uma gestação não planejada, os profissionais fizeram questão de ressaltar que esse debate é difícil no Brasil, já que no país o aborto é considerado crime. No entanto, em uma situação controlada, como nos países onde a prática é legalizada, sem dúvidas a interrupção da gravidez seria o mais indicado. “No nosso contexto, aborto é ilegal. Então ele aconteceria em condição precária de higiene. Não tenho menor dúvida de que nessa condição o aborto vai ser muito pior do que numa gravidez. Mas do ponto de vista de uma condição ideal isso seria muito melhor. O corpo é dela. É ela que decide sobre o corpo. O aborto legalizado seria muito melhor do que uma gravidez não planejada do ponto de vista profissional, econômico...”, disse Afonso Nazário. Já psicóloga Laura Muller explica que do ponto de vista emocional não é possível definir o que seria mais traumático. “Cada um tem seus valores e suas crenças. O dano emocional depende de cada um. Precisa ser avaliado de uma forma mais complexa. quando você pergunta de dano emocional, vai depender de cada um, de um conjunto de coisas”. “Eu digo que nós somos muito hipócritas. Adolescente de classe media alta aborta porque tem os caminhos, adolescente de nível social mais baixo não”, completa Albertina Takiuti.
 
Maternidade é obrigatória, paternidade é facultativa
 
A médica acrescenta ainda que, em muitos casos, independente de qual escolha a mulher tomou, ela inevitavelmente é abandonada pelo companheiro. “Temos uma pesquisa de São Paulo que contatou qWue 60% das mulheres que abortam são abandonadas pelos parceiros logo em seguida. Das que decidem ter o filho, 20% são abandonadas logo depois que o bebê nasce e outras 20% são abandonadas em até cinco anos”.
 
Fonte: Porta O Dia

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